Uma estudante inglesa descreve seu caminho no Sufismo

Minha jornada em direção ao Sufismo

Cresci ciente da presença de algo superior, entendido como “Deus”, mas a noção era vagamente baseada nas teorias new age que não visavam buscar a realidade dessa presença. Foi com meu pai, cujos olhos reluziam ardentemente, tomados de uma intensidade que agora sei que era a barakah, que comecei a me conscientizar da presença tangível de Deus. 

Eu tinha interesse em meditar, mas para mim era difícil ficar sentada. Aos 19 anos pratiquei Tai Chi, o que deu um senso de equilíbrio e eficiência à minha vida e iniciei uma jornada no trabalho de energia, improvisação, artes dramáticas e estudos somáticos, incluindo técnicas de dança. Na faculdade fiz Estudos Teatrais com foco na área de presença e arte dramática na tradição de improvisação de dança. A finalidade da prática de improvisação, que é representar sem coreografia ou arranjo artístico preestabelecido, é refinar a capacidade perceptiva para criar um trabalho a partir do reconhecimento do equilíbrio e harmonia no momento e desenvolver no corpo virtuosidade suficiente para compor movimento relacionado com essas percepções. Os praticantes da improvisação falam sobre um fenômeno chamado ‘estar no momento’ e para minha dissertação fui à Nova York entrevistar dançarinos sobre esse tema. Minhas práticas eram direcionadas pelo meu interesse em entender a ‘presença’. Eu gostava do sentimento de unidade que o ‘estar no momento’ proporcionava ao que eu estava fazendo, e buscava técnicas para aumentar o tempo que me sentia consciente desta forma. Quando vivenciava esse estado, a dança fluía sem esforço, minha percepção encarregava-se da inter-relação de tudo, e eu atingia um equilíbrio: liberdade de uma auto-consciência limitante e a clareza no presente criativo.

Entretanto, quando dançava percebia que a experiência de ‘estar no momento’ não me era sempre acessível. Reconheci a importância de render-me ao que estava presente e sair do caminho para permitir que algo além de mim preenchesse o movimento no palco, mas isso nem sempre era suficiente para chegar àquele estado de liberação. Depois da faculdade continuei a estudar dança e arte dramática, mas ficou difícil conciliar o desejo de aprofundar-me nessas experiências mais meditativas com as demandas da estrutura da atuação. Às vezes a intensidade de ‘estar no momento’ deixava-me de pé parada sem querer mover. Comecei a freqüentar aulas de movimento que focava mais no auto-desenvolvimento e nessa época inteirei-me de práticas religiosas. Entretanto, sem inclinação por um caminho religioso específico, eu ainda focava no trabalho corporal como uma forma de desenvolver o ‘ego’, acreditando que a corporificação deliberada podia desfazer as camadas de condicionamento que restringiam minha capacidade de estar presente na vida. 

Em 2001 comecei a trabalhar no “Greenwich Arts and Cultural Office”. Uma moça da minha idade trabalhava lá e fiquei comovida com o enorme zelo e gentileza que tinha para com todos à sua volta. Ela era paciente com outros colegas e tinha uma certa qualidade que me despertou a vontade de passar mais tempo com ela. Ela vestia um hijab e eu estava curiosa em saber por que uma moça jovem, branca, inglesa convertera-se ao Islã. Quando perguntei sobre suas práticas espirituais ela as descreveu ampla mas cuidadosamente, como se estivesse protegendo algo muito precioso; ela não falou muito sobre Sufismo e nunca tentou persuadir-me a frequentar as reuniões.

Um pouco antes de sair do Greenwich fui a um retiro de ioga no Egito. Era a época do Ramadã, o mês em que os muçulmanos jejuam. Ao chegar a Sharm el Sheykh, senti de imediato o poder daquele lugar e entendi o termo “Terra Sagrada”. Sempre fui sensível à força da natureza e às áreas montanhosas e energéticas do mundo, mas esse lugar tinha uma qualidade muito peculiar. Foi lá também que ouvi pela primeira vez um som que parecia perfurar meu coração; apesar de não entender as palavras, o Adhan, ou chamado para oração, ressoando da mesquita nas montanhas parecia comunicar-se comigo muito claramente.

Ao retornar à Inglaterra perguntei à minha amiga se podia meditar com ela em sua casa. A meditação não foi extraordinária, mas eu queria meditar novamente e visitar seu grupo de meditação. Quando o líder do grupo me perguntou por que estava lá, a resposta articulou-se na minha cabeça como ‘descobrir o que era verdadeiro’. ‘Certeza’ e ‘Verdade’ são palavras-chave no Sufismo, algo que pouco sabia antes daquela noite. A clareza dessa compreensão foi surpreendente. Até então eu não sabia o que estava procurando. Era como se aquela pergunta tivesse iluminado todos os pontos que levaram àquele momento e a resposta ressoou em mim tão claramente quanto o chamado para oração. Para minha surpresa, a meditação de uma hora naquela noite fluiu facilmente e, persuadida pela receptividade e bem estar que vivenciei em seu transcurso, continuei a praticá-la diariamente sem muito esforço.

Isso foi um ano antes de conhecer Hazrat, o Sheykh da nossa ordem. Ele se hospedava na casa do líder do grupo a qual ficava aberta para seus murids. Uma presença lindamente doce de paz e tranquilidade residia na casa quando Hazrat estava lá e eu tinha vontade de estar ali tanto quanto fosse possível. Nestas visitas anuais todos se empenhavam para atender às necessidades do Sheykh; observei os estudantes de Hazrat inquietos com a preparação de seu chá. Essas formas de adab eram estranhas para mim, mas quando comecei a entender o significado da relação estudante/professor na aproximação de Alláh, eu pude perceber seu valor para o estudante.

No meu primeiro encontro com Hazrat fomos a uma sala praticamente vazia onde ele se sentou em um colchão fino. Antes de nos apresentarmos foi-me sugerido que tivesse as perguntas prontas e o que podia esperar. Entretanto, meus encontros com Hazrat nunca foram como eu esperava. Passava dias preparando uma pergunta que eu achava importante, mas diante dele as palavras desmoronavam-se e o significado dos pensamentos deslizava da minha mente perdida. Hazrat aguardou enquanto eu tentava articular o que queria dizer e me disse, “Se você não souber a pergunta, você não poderá encontrar a resposta”.

Para Hazrat tudo que não vem do coração nada significa e ficou claro para mim que minha pergunta não havia sido sincera. Este foco no coração e articulação da ‘verdade’ era algo que Hazrat continuou a me ensinar. Mais tarde, quando mostrei a Hazrat um poema que havia escrito, para meu espanto ele perguntou o que eu estava tentando dizer. Para mim o poema era claro, mas ele me fez ver que meus significados estavam muitas vezes encobertos. Hazrat incentivou-me a escrever e acho que essa foi talvez uma forma de manter-me focada nele. No contexto da poesia Hazrat me ensinou a importância de terminar um poema, de focar na meta final e expressar-me da forma mais direta e sincera. Tudo isso, percebi mais tarde, tinha conotações espirituais mais profundas.

Muitas vezes, porém, não entendia como Hazrat me ensinava. Na época meu ego estava confuso diante da aparente insignificância de nossas reuniões. Eram sempre curtas e eu não entendia como alguém podia me ensinar sem saber quem eu era! Hazrat tentava me ajudar a ver que se o coração estiver conectado, as formalidades externas da relação professor/estudante não são importantes, mas para mim foi difícil entender isso. Eu não sabia de muita coisa que acontecia nos bastidores, porém estava ciente da grande mudança em minha vida cotidiana. Situações que estavam empacadas começaram a se alterar causando mudanças difíceis, mas drasticamente transformadoras em minha vida e em pouco tempo passei a confiar em Hazrat implicitamente

Essa confiança parecia crescer dentro de mim e quando meu intelecto reconheceu o efeito que Hazrat causava em minha vida, eu já havia confiado a ele meu coração. Reconheci o amor que abundava quando ele estava conosco e a transformação de estados quando estávamos em sua presença. Quando estava com ele eu me tornava incrivelmente ciente das construções da minha personalidade; sua presença também me transportava para fora do meu estado constritivo, e me permitia experienciar uma expanção maior.

Hazrat surgiu na minha vida pela Misericórdia de Alláh. Naqueles curtos encontros iniciais Hazrat parecia perceber os obstáculos que estavam no caminho do meu progresso. De formas extremamente sutis comecei a perceber que para submeter-me a Alláh, eu teria de submeter-me à relação professor/estudante. Tudo isso aconteceu através do coração. Hazrat nunca falou sobre isso e, ao contrário do esperado, nem mesmo me encorajou a fazer o bay’at. Pelo contrário, ele indicou que a responsabilidade da decisão de conversão ao Islã era minha. A sua abordagem sem pressões assegurou-me ainda mais que esse era o caminho que eu queria seguir.

Depois da partida de Hazrat naquele ano, minha certeza quanto ao Islã e meu professor tornou-se muito profunda. As transmissões me revelaram a essência do Islã e entendi que não podia chegar onde queria sem abraçar a religião na qual essas práticas estavam enraizadas. Ao invés de algo que inibia a escolha, eu estava vivenciando o Islã como uma forma de desfazer padrões de comportamento antigos e de liberar o ego do controle constritivo do nafs. Levantar os véus do coração é incrivelmente palpável. Descobri que ser um verdadeiro muçulmano não reduz a vida à fé cega, mas me possibilitou vivenciar graus da presença de Deus em toda sua imensidão. Eu estava reinspirada novamente, conectada a um sentimento do infinito e a uma crescente certeza da vida além do dunya. Entretanto, ao invés de desvincular-me do cotidiano, as práticas intensificaram minhas experiências tornando minhas relações mais refinadas, minhas ações mais conscientes e me aliviaram de uma mente super análitica e estados emocionais dominadores.

Hazrat abriu a beleza da religião para mim, a beleza de enxergar o brilho da luz Divina que somente um homem próximo a Deus pode nos ajudar a perceber. Através de ensinamentos sutis, ele me ajudou a entender o laço forte que necessito criar com Alláh e a importância da adoração para mudar meu foco do ego dividido à Unicidade de Alláh. Perceber que estou no caminho que abre a porta da Realidade Última enquanto abre também o potencial consciente que esta adormecido no ser humano, é algo pelo qual sou sinceramente grata. Eu rezo para ser abençoada com fé e constância neste caminho e agradeço por ter sido guiada a um professor tão abençoado que tornou possível, insha’allah, chegar perto Dele a Quem pretendo conhecer com todo o meu coração.

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