Relato pessoal de um jovem estudante morando no Reino Unido

Descobrindo a meditação

Meu primeiro contato com a meditação foi através de um amigo da faculdade que praticava um tipo de meditação iogue. A meditação melhorou meu temperamento, exerceu um efeito calmante e gostei das práticas realizadas quase em segredo. Entretanto, não gostava do princípio de pagar pelo ensinamento espiritual ou de associar-me oficialmente a uma entidade ocidental que comercializava a meditação como uma técnica para alívio do estresse cientificamente comprovada. Não obstante, senti-me estimulado por certas experiências psiquicas daquela meditação mântrica a procurar um caminho mais ligado ao Sufismo (Tassawuf) – um caminho já que tinha ouvido falar dado a minha origem muçulmana.

Eu não era o único a pensar que enquanto as religiões orientais estavam sendo diluídas para satisfazer as necessidades ocidentais, alguém, em algum lugar, tornava-se fabulosamente rico. Concluí, no meu coração, que a meditação é uma prática sagrada e por isso tem de emanar da mais elevada essência, Deus. Eu já havia concluido que meu caminho da salvação estava no Islã ortodoxo – nos princípios da submissão, confiança em Deus e silêncio, e já que estes estavam dentro do âmbito de uma religião que se auto descrevia como sendo “nem ocidental nem oriental”, não tive que me preocupar se o ensinamento era ocidental ou oriental. Tornou-se difícil continuar meditando sozinho e lembrei-me do dito que li em um livro há muitos anos.

“Aquele que não souber usar a espada, ferir-se-á a si mesmo”.

Eu fiz, portanto, a intenção de encontrar um professor, esperançoso nas palavras de Rumi que minha busca não seria em vão.

“Ó, sedento, continue buscando, não desista, pois um dia alcançarás a fonte”.

Fui criado no ocidente e, como muitos da minha geração, fui levado a acreditar que a verdade está na razão e no raciocínio. O que não se pode ver ou entender deve ser falso ou inexistente. Mas minha busca pela verdade já começava a me afastar desta forma egocêntrica de pensamento e, portanto em direção à filosofia “oriental”.

No início foi muito difícil ver as árvores, mas não enxergar a floresta. Muitas pessoas e grupos reivindicavam conhecer a verdade. Eu sabia que o que eles tinham para oferecer derivava, em essência, das grandes religiões do mundo, que eram irradiações da mesma lâmpada, afinal todos os caminhos conduzem a Deus. Mas ao mesmo tempo eu sabia que deveria ser cauteloso na minha busca, ser prudente e responsável por minhas ações, ter cuidado para não passar por uma lavagem cerebral ou ser coagido por algum homem espiritual a atividades das quais pudesse me arrepender depois. Vi muitas pessoas em outros grupos avançarem até certo ponto e então, inesperademente se encontravam novamente em uma encruzilhada, confusas e sem orientação real. Em outras palavras, a maioria dos grupos não tinha guias verdadeiros, guias estes que eu sabia estavam em algum lugar – como jóias entre nós – se apenas pudessem ser encontrados. O Profeta (saws) advertiu que muitos professores falsos e seitas caóticas surgiriam no futuro e isto me fez ainda mais cauteloso. Não queria ser identificado como membro de uma “seita” nem cair sutilmente numa cilada manipuladora; ou eu encontrava um guia que me ajudasse no caminho para Deus ou nada.

Introdução à Escola de Ensinamento Sufi

A perspectiva ocidental comumente leva as pessoas a formar opiniões baseadas em aparência física, e isso determina como julgam o status e a capacidade das pessoas. Infelizmente, a sociedade quase sempre julga o livro pela capa. Eu mesmo quase caí nessa armadilha.

Deparei-me com um folheto da Escola de Ensinamento Sufi. Deus abençoe quem o colocou em minhas mãos. Segui as coordenadas do folheto e mais tarde fui introduzido às práticas da Ordem Naqshbandiya-Mujaddidiya pelos líderes do grupo, os quais foram atenciosos e amáveis todo o tempo, sempre dispostos a ajudar.

Fiquei comovido com as experiências que tive com os estudantes de Hazrat que vinham de todas as esferas da vida e cantos do mundo, especialmente pela gentileza para com os outros, amor e harmonia entre eles, dedicação às suas práticas, humildade e felicidade. Tudo isso despertou em mim um enorme desejo de conhecer seu professor, que me parecia uma criatura verdadeiramente extraordinária, embora ainda não o conhecesse pessoalmente. Para mim ele era o responsável pelas sementes de amor plantadas no coração desses estudantes e havia criado um lindo jardim. Como ele fez isso? Eu tinha certeza que, com a benção de Deus, conheceria esse professor e descobriria como.

Os líderes do grupo em Londres me disseram que em breve o Sheykh viria à Inglaterra e na minha ansiedade de conhecê-lo comecei a imaginar sua fisionomia. Eu já havia pintado um quadro dele na minha cabeça. Eu imaginava um homem grande e alto que passava o tempo em um khanaqah [centro Sufi] finamente decorado meio a jardins exuberantes, uma figura silenciosa, porém ostentando o respeito de um homem poderoso, de pele radiante e belo cabelo. Eu esperava que ele me transportasse para Deus com sua mera presença. Pensei que Deus era muito bom para este homem realizando todos os seus desejos. Sim, em pouco tempo projetei uma imagem bastante romântica.


Primeiro vislumbre de um Sheykh

Como devem ter adivinhado (embora na época ficasse muito surpreso), meus pensamentos iniciais quando vi o Sheykh não condiziam com o quadro que havia pintado. A realidade era diferente.

Eu vi o Sheykh rapidamente enquanto conduzia uma oração. Ele era um homem baixo, usando traje indiano e um gorro cobria sua cabeça. Tinha a barba branca e era uma figura silenciosa.

Todavia durante este tempo percebi que os corações de todos os estudantes eram cheios de amor e voltados ao Sheykh. Esse foi um momento que inspirou reverência. Eu queria ter a oportunidade de conhecer este homem interessante.

Primeiro encontro com Sheykh Hazrat Azad Rasool

Meu primeiro encontro com Hazrat foi muito interessante. Foi simples! Conversamos como se já nos conhecessemos, mas senti respeito por ele como se fosse meu pai. Seu sorriso caloroso falou mais alto do que palavras sábias. Felicidade e paz estavam escritas em todo o seu semblante. Ele conversava como se fôssemos bons amigos. Senti que podia estar em sua companhia para sempre.

Ao mesmo tempo senti que Hazrat estava muito ciente e sempre apreciativo do momento. Não senti a necessidade de fazer perguntas na meditação. Eu havia planejado perguntas para demonstrar meu interesse e criar formalidade, mas senti-me muito confortável em sua presença, e as práticas eram tão simples! Senti o efeito das práticas, para a minha alegria, em muito pouco tempo.

Fiquei impressionado com a simplicidade de Hazrat e foi surpreendente que minha imagem romântica de um Mestre Sufi “saiu porta a fora”. Mas eu não estava decepcionado. Embora tivesse ouvido a frase “nada é como parece”, comecei a perceber a profunda realidade dessas palavras. É muito fácil encontrar falsidade no mundo, mas a verdade somente pode ser encontrada nos corações das pessoas verdadeiras. À medida que isso foi ficando claro, comecei a ver coisas de uma nova maneira. O olho do espectador mudou para sempre.

Meu encontro com Hazrat inspirou-me a meditar mais e a reavaliar meu entendimento da relação professor-estudante.

Durante meu segundo encontro com Hazrat, recebi a transmissão no latifa Coração [centro da consciência] e desde então continuei com as práticas.

Encontrei-me com Hazrat em diversas ocasiões, ele sempre está a apenas um telefonema de distância e sempre atento às necessidades de seus estudantes. Hazrat sempre encorajou o espírito de doação, ele diz  “Todos estão tentando tirar algo, por que não ser uma pessoa que pode dar.”

Eu avancei mais no meu trajeto de destino, e as práticas me ajudaram muito a atingir um equilíbrio entre o mundo (Dunya) e a espiritualidade, particularmente com as exigências do meu trabalho e as pressões da vida familiar.

Não desejo divulgar mais detalhes, mas minhas últimas palavras – aproveitando esta oportunidade – seriam não julgue ninguém, para que não seja julgado. Tenha cuidado com o que deseja porque nada é o que parece. A sua força de vontade é forte o bastante ou você cairá no caminho do seu destino?

Que Deus abençoe meu segredo, que Ele abençoe você, que Ele abençoe meu Sheykh com uma vida feliz e longa, estou sem palavras para descrever como o amor persiste nesta relação.

– Anônimo

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