Relato pessoal de um estudante da Inglaterra

Eu era uma criança apaixonada pela “natureza”. Meu amor eram as árvores, os campos, o mar, as falésias e os céus da Inglaterra e do país de Gales. Eu adorava perambular e explorar – eu era “um pequeno menino que cultuava à beira-mar”. Na adolescência tornei-me um rapaz sério e determinado, infeliz em uma escola muito disciplinada e autoritária, mas de alto nível acadêmico. Eu era precocemente inteligente e extraordinariamente ocupado. Eu liderava o grêmio de debates da escola e organizava as atividades dos “serviços comunitários”. Tornei-me um rebelde, simpatizante do CND e cheguei a ser suspenso da escola pelo que se considerava como atividades “subversivas”.

Fui crismado na Igreja Anglicana aos 13 anos por minha livre escolha. Li muito e aos 16 anos fui muito influenciado por teólogos cristãos “existencialistas” como Soren Kierkegaard, Paul Tillich e Dietrich Bonhoeffer (executado pelos nazistas em 1945). Nessa época também li um pouco de Gurdjieff e interessei-me pelo Zen Budismo. Meu vínculo formal com a igreja cristã cessou por alguns anos, mas permaneci intensamente interessado nos debates sobre espiritualidade, mesmo aos 20 e 30 anos, quando meu interesse e crença principais eram o marxismo.

Lembro-me que ainda adolescente discuti com um amigo o significado do comando de Cristo “ame ao próximo como a ti mesmo”, percebendo que isso implicava em primeiramente “amar a si próprio”. Naquele tempo eu não sentia muito amor por mim mesmo e frequentemente sofria de depressão. Mais tarde, como um (não muito ortodoxo!) marxista, lembro-me de defender os que diziam “Deus é amor”, entendendo que isto significava que o “amor” era a força mais poderosa no universo e que, portanto “amor” deve ser “Deus”.

Durante anos estive enamorado do texto oracular chinês “I Ching” ou Livro das Mutações, que é uma mistura de Taoísmo e Confucionismo. Fiquei viciado em consultar este “oráculo” até que percebi que refazia minhas consultas várias vezes até encontrar a resposta que me fosse conveniente!

Além da leitura de Gurdjieff (que “emprestou” várias idéias e práticas do Sufismo), eu não tinha contato consciente com os Sufis até que, quando eu tinha cerca de 22 anos, um velho conhecido da época que estudava na Oxford me disse que era pupilo de um sheykh Sufi da Algéria. O que me impressionou foi que este rapaz havia parado de usar drogas (o que não fiz), mas ele não parecia “devoto” nem auto-congratulatório sobre o fato.

A jornada da minha vida tornou-se um tanto arriscada. Usava drogas e álcool imprudentemente, era negligente com a minha vida e fui parar em um hospital psiquiátrico. Essa experiência trouxe os “meus pés ao chão” com muita força. Recebi muito amor e carinho de pessoas desconhecidas e isso reviveu o meu espírito.

Já perto dos 30 anos “assentei a cabeça” pelo menos um pouco, e tive um filho. Tive vários empregos, mas continuei duro, frio e argumentativo. Eu perdi muitos amigos. Quando meu filho tinha um ano de idade, fiquei em casa e cuidei dele por um período de um ano enquanto sua mãe trabalhava fora. Essa experiência começou a me suavizar. Trabalhei então, durante cinco anos, como instrutor de crianças abaixo de cinco anos. Isso me suavizou ainda mais.

Durante esse tempo o interesse por questões espirituais revivia gradualmente dentro de mim. Certo dia entrei em uma livraria e descobri um livro de Rajneesh (depois conhecido por “Osho”). Devorei dezenas de seus livros, um dos quais era sobre o Sufismo, cujo título era “Straight to freedom”. Depois li os livros de Reshad Field – um em particular chamado “The Invisible Way”. Fui persuadido pela linda fotografia da capa – a costa, o mar e os pássaros (a antiga natureza mística ainda vivia dentro de mim!).

Em algum momento naquela época decidi entrar em contato com os Sufis. Não sabia por onde começar (não me ocorreu olhar no “Time Out”!). O fundo da casa em que morava na época, em Dalston, Londres, dava para uma casa grande aparentemente ocupada por um tipo de “comunidade”. Mas eu não tinha idéia de quem eram essas pessoas. Eu já tinha morado em vários tipos de comunidade, normalmente caóticas, mas não dava para saber que tipo de casa era. Sempre via mulheres limpando e às vezes vários homens subiam escadas, geralmente à noite, como se estivessem praticando a arte do equilíbrio. Às vezes, um tipo parecido com um lorde escocês aparecia no jardim e cheirava as rosas. Lembrei-me então que li no jornal sobre os “dervishes girantes” em Dalston, e resolvi bater na porta da casa. “Vocês são Sufis?”, perguntei. “Sim, mas como você sabe?” foi a resposta. Eu expliquei e fui então convidado às palestras semanais dada pelo professor (o que parecia um lorde escocês). Frequentei as palestras por vários anos e pratiquei várias recitações prescritas por esse professor, apesar de ter receio de ter contato pessoal com ele. Entretanto, ele parecia ser clarividente e em várias ocasiões parecia dirigir seus pensamentos ou atenção diretamente a determinados indivíduos na platéia, inclusive a mim.

Passados alguns anos as palestras cessaram e assumi que o professor havia partido para o exterior com seus pupilos. Eu continuei, tolamente (olhando em retrospectiva), com os exercícios e recitações prescritas sem nehuma orientação ou contato com um professor. Após uns dois anos nessa prática, eu estava em um estado de muita ansiedade e com ataques de pânico frequentes. Eu percebi que precisava de ajuda, mas não sabia a quem recorrer. Escrevi para Reshad Field (na Suíça). A caminho do correio para enviar a carta, vi um dos pupilos do professor escocês na rua. Não falei com ele e voltei para casa amaldiçoando minha tolice. “Obviamente isso aconteceu para ajudá-lo, seu tonto!”, disse a mim mesmo, “por que não falou com ele?” Uma semana depois vi o amigo daquele homem na rua (eles haviam acabado de se mudar para aquele local). Dessa vez expliquei minha difícil situação e o amigo explicou que agora estavam em contato com um novo professor, chamado Hazrat, e fui convidado para as reuniões semanais.

Que alívio! Quando comecei a frequentar as reuniões do grupo de Hazrat em Londres (1989) estava tão tenso e ansioso que tive que literalmente segurar minhas pernas para conseguir sentar parado. Mas minha presença foi tolerada (!) e gradualmente consegui relaxar.

Comecei a fazer a meditação de Hazrat e o efeito inicial foi sem dúvida calmante e estabilizador. Seis meses depois Hazrat veio à Inglaterra, mas eu sempre protelava visitá-lo. Um dia o amigo que havia visto na rua telefonou e me disse: “esse tipo de oportunidade não aparece todo dia, por que não vem visitar Hazrat?”.

Comecei a cruzar a cidade de Londres, de Dalston a Brixton, mas o metrô estava parado por alguma razão. Peguei um ônibus em Oxford Circus que pareceu durar uma eternidade. Conversei com o homem ao meu lado que estava embriagado, pensando, “Ó meu Deus, vou terminar num bar com esse cara, eu sei que vou!”. Mas não fui, e encontrei com Hazrat. Estava apreensivo, mas assim que sentei com ele tudo ficou OK. Senti que podia confiar nele. Pareceu-me também (e não sei se isso foi real ou nervosismo) que Hazrat parecia entrar e sair de foco, como se estivesse nesta e também em outras realidades. A partir daquele momento vi Hazrat como uma combinação excepcional do muito ordinário e terreno e o muito extraordinário e espiritual. As duas coisas ao mesmo tempo. As duas coisas igualmente importantes. As duas coisas fazem dele o professor que é. É assim que o vejo.

Desde então continuei com o grupo em Londres, e Hazrat quase sempre nos visitava no outono. Continuei com as práticas, às vezes regularmente e às vezes não, e participei das reuniões semanais, às vezes regularmente e às vezes não. Nos últimos anos tivemos vários retiros que duravam vários dias. A composição do grupo sempre mudou, embora ainda haja alguns membros de doze ou treze anos atrás. Mesmo com as mudanças, a essência do que fazemos ou tentamos fazer continua a mesma.

Quando comecei a frequentar o grupo eu não praticava nenhuma religião. Após alguns anos conscientizei-me, uma vez mais, do que me parecia ser a realidade espiritual de Jesus e retornei à Igreja Anglicana por um tempo. Falei com Hazrat sobre isso com algum receio, mas ele sorriu e me disse “Estou feliz que você retornou a alguma religião!”. Desde então entrei em contato com os Quacres e participei de algumas reuniões. Há dois anos a Escola de Ensinamento Sufi promoveu um fim de semana de introdução ao Sufismo para os amigos Quacres na Charney Manor em Oxfordshire, onde também realizávamos nossos retiros. Pessoalmente, acho que há muitas afinidades entre os Quacres e o Sufismo. Atualmente a maioria do grupo que se reúne em Londres é muçulmana, mas nunca me senti pressionado a converter-me ao Islã e Hazrat sempre me disse “minha única preocupação é que as pessoas estejam mais próximas de Deus.”  

Minha experiência com as práticas é que a pessoa é conduzida a uma jornada que às vezes é fácil e às vezes é difícil, e parte disso é a conscientização gradual e cada vez maior de quem realmente somos e a destruição gradual de partes de si que são muito duras ou frias ou inúteis. É ao mesmo tempo uma estrada fácil e também muito difícil. Ambas as coisas – não consigo explicar o paradoxo.

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